09 Novembro 2009

6 de Novembro de 2009, o dia em que morri.

Long afloat on shipless oceans
I did all my best to smile
'Til your singing eyes and fingers
Drew me loving to your isle
And you sang
Sail to me
Sail to me
Let me enfold you
Here I am
Here I am
Waiting to hold you

Did I dream you dreamed about me?
Were you hare when I was fox?
Now my foolish boat is leaning
Broken lovelorn on your rocks,
For you sing, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow:
O my heart, O my heart shies from the sorrow"

I am puzzled as the newborn child
I am troubled at the tide:
Should I stand amid the breakers?
Should I lie with Death my bride?
Hear me sing, "Swim to me, Swim to me, Let me enfold you:
Here I am, Here I am, Waiting to hold you

(Song To The Siren - Tim Buckley, versão This Mortal Coil)



Está frio aqui...

Hoje morri. Morri, porque vi o melhor que houve em mim ser atirado para o chão... E fui eu que o atirei para o chão... a culpa não é de ninguém, senão minha.

Morri porque o que de mais puro, natural e transparente que há de mim, morreu. Não tem lugar neste mundo. Não tem razão de ser e continuar de outra forma; não serve para mim.

Morri, porque a minha alma gémea, o meu sonho, a pessoa que sentimentos mais intensos me deu, está fora da minha vida...

Estou cheio de frio... logo eu que nunca tenho frio...

Houve uma sensação de "para sempre", fortíssima, sólida... coerente... mas acabou... por isso morri. Lembro-me do incrível bem-estar do primeiro dia... o primeiro dia em que senti o "para sempre"...

Nunca havia sentido esta sensação de "alma gémea". É algo mais forte que íntimo... são espíritos inquietos que se encaixam, almas que se entrelaçam com mais aperto, que a sexualidade de dois corpos perfeitos um para o outro... e que também lá estavam.

A sensação de felicidade era tal, que estive sempre desarmado de máscaras, de protecções... Fui sempre transparente... Fui eu como nunca havia sido, nem me havia sentido eu.

Está cada vez mais frio aqui...

Fui tanto eu, que até o meu mau feitio foi descontrolado pela desilusão que eu mesmo criei em nós.

Hoje morri. Morri porque o processo é irreversível... Foi tudo tão curto e tão intenso. Daí a força da pancada que me matou... Foram várias; se calhar a de hoje não foi a mais forte. Foi a que eu vi melhor a acertar-me... em que melhor percebi que bati em mim mesmo e que o perdão é impossível. Por isso morri.

Morri por inacção e indiferença da minha suposta alma gémea.

Que frio continua aqui...

E eu morri. Morri porque não acredito mais em relacionamentos especiais... Morri porque não quero baixar a fasquia para o normal... controlado... sossegado... isento de medos de perda ou traicção. Isentos de descontrolo de tanto gostar e amar e desejar. E não quero baixar as expectativas.

Morro, porque não há amor, não há almas gémeas, não há relacionamentos especiais, com côr... só cinzento... pessoas que se acostumam ao morno, ao racional. É claro que ninguém nasce pré-destinado e pré-formatado para outro. É preciso deixar que o amor nos transforme e adapte. E até nos mude...

Morri porque o amor é uma utopia: não há amor mágico, puro, desinteressado e incondicional... apenas fabricado, adaptado, acostumado.

Sinto um frio...

Há quem diga que as coisas têm de surgir por si, naturalmente... Não acredito. É demasiado "zen" para mim. Diria "não só mas também". Cansei-me de esperar... percebi que a mim a vida nada me traz de bom, senão o procurar com muito esforço. Quando sinto algo de bom, luto até ao fim com tudo o que tenho, para conseguir vincar esse sentimento. Um relacionamento amoroso, como outro qualquer, necessita de muito trabalho de "encaixe"...minto: necessita de muito mais! Porque dele se espera muito mais... por mais tempo... para sempre! Não sei lidar com a revolta do desperdício. Mas hoje morri... estou cansado... não consigo mais.

A conquista tem um paladar especial... mas de borla, só mesmo desgostos...

Morri porque me cansei que não acredite em mim, no que sinto, na forma como me exponho, no meu carácter, na minha ausência de mal, no medo que eu algum dia a possa magoar... pelo que a culpa só pode ser minha...

Sinto mesmo muito frio aqui...

Morro de cansaço, de insistência. Não posso pagar as facturas dos outros... até porque nem as minhas consigo pagar... O desgaste é muito... a morte inevitável.

Tenho necessidade de ti, alma gémea... espírito inquieto... ser especial que me encanta o coração e aquece a alma. Sinta falta da minha parte de ti... ou da outra parte de mim, em ti. Não sintas a minha falta, não quero. Sim, claro, não sentes... antes pelo contrário, só alívio! Mimo, muito, é o que te quero dar. Atenção, toda a que consiga dar-te. Companhia e aconchego, sempre... dos melhores momentos às noites de insónia e aos acordares agoniados. Morro, porque não precisas de mim, nem queres, o que te posso dar (mesmo gostando...).

Quero dar-te tudo. Tudo para que nunca te sintas insegura... nem sintas incertezas... nem dúvidas ao que sinto por ti. Porque não há mesmo razão para o sentires ou seres... e nunca haverá. Meios termos? Não... não consigo. Vales demasiado para mim para conseguir gerir isso. Preciso de mais... preciso de tudo!

Morri... não aguento mais o frio.

Fim.

Sérgio

04 Novembro 2009

António Sérgio


Faleceu este fim-de-semana com 59 anos, vítima de problemas cardíacos, o meu locutor de rádio favorito.

Dono de uma voz grave e cavernosa, foi desde sempre o símbolo sonoro dos sons novos e inovadores. Os seus programas tinham uma linha muito própria, e durante anos, apresentou ao país aquilo que poucos teriam capacidade de conhecer por si próprios: música de qualidade inquestionável fora dos catálogos comerciais dos media.

Programas como "O Vapor da Meia-Noite", "O Som da Frente" ou "A Hora do Lobo" são apenas os mais mediáticos das rádios com maiores audiências. Para trás ficam outras rádios como a XFM, e mais recentemente, a RADAR FM.

A apresentação de "Masters of War" dos "The Long Ryders" terá sido a sua última gravação... no derradeiro "SOS RADAR".

No seu funeral estiveram presentes mais de 200 pessoas e a comunicação social está cheia de declarações de homenagem à sua imensa qualidade, quer como locutor, como à sua capacidade de discenir qualidade musical e originalidade na imensa oferta de novos sons que o mercado musical cada vez mais oferece. De Rodrigo Leão aos Xutos e Pontapés, ninguem foi indiferente.

António Sérgio foi daquelas pessoas, que sem nunca o ter conhecido, marcou-me. Dele apenas conhecia a voz e o seu inesgotável conhecimento musical (além do bom gosto!). Só conheci a cara deste homem por fotografia, depois do seu falecimento. Agora que já não está entre nós... sinto a sua falta...

Recordo um dos momentos mais incriveis que me proporcionou. Depois de um dia de trabalho longo em Lisboa, fui jantar com um amigo. Devo ter iniciado o regresso ao Porto depois das 23h. Cansado de uma semana fora de casa com muitos quilómetros percorridos e dos cds que várias vezes ouvira, esperei que fosse meia-noite para passar para a Rádio Comercial. Na A1 chuvia impiedosamente ao ponto de quando passava os 140 kms/h, o carro entrava em aquaplaning. A "Hora do Lobo" começou com uns sons estranhos... melancólicos e pesados... uma voz misteriosa e melodiosa completava uma sonoridade abstrata, com uma componente arrepiante, e em simultâneo, tranquilizadora. Havia algo de electrónico naquele som... mas ao mesmo tempo, a simplicidade e suavidade profunda de um eco vindo das montanhas repletas de neve da Aústria... Este cenário inóspito terminou com a voz carismática de António Sérgio a apresentar uma banca de nome GoldFrapp. Jamais esquecerei...

Onde quer que estejas agora, nunca aqui serás esquecido...

Sérgio

02 Novembro 2009

Stay... not faraway... much closer!


Green light, Seven Eleven,
You stop in for a pack of cigarettes.
You don't smoke, don't even want to.
Hey now, check your change.
Dressed up like a car crash
Your wheels are turnin' but you're upside down.
You say when he hits you, you don't mind
Because when he hurts you, you feel alive.
Oh, is that what it is?

Red lights, grey morning
You stumble out of a hole in the ground.
A vampire or a victim
It depends on who's around.
You used to stay in to watch the adverts
You could lip synch. to the talk shows.
And if you look, you look through me
And when you talk, you talk at me
And when I touch you, you don't feel a thing.

If I could stay, then the night would give you up.
Stay, and the day would keep its trust.
Stay, and the night would be enough.

Faraway, so close
Up with the static and the radio.
With satellite television
You can go anywhere:
Miami, New Orleans
London, Belfast and Berlin.

And, if you listen, I can't call.
And, if you jump, you just might fall.
And, if you shout, I'll only hear you.

If I could stay, then the night would give you up.
Stay, and the day would keep its trust.
Stay with the demons you drowned.
Stay with the spirit I found.
Stay, and the night would be enough.

Three o'clock in the morning
It's quiet, there's no one around,
Just the bang and the clatter
As an angel runs to ground.
Just the bang and the clatter
As an angel hits the ground.

(U2 - Stay, Zooropa)


Stay foi desde logo o meu tema favorito do álbum Zooropa. Um álbum controverso (como grande parte dos álbuns dos U2, banda que já é conhecida por conseguir inovar e criar tendências musicais distintas, sem perder a sua coerência enquanto banda... digo eu...). Provavelmente Zooropa foi controverso, porque quebrou a irreverência de Achtung Baby com um toque mais electrónico e menos frenético; que por sua vez havia dado uma pedrada no charco no som mais americanizado e comercial de Joshua Tree e Rattle & Hum... e talvez estes dois tenham sido os únicos álbuns não irreverentes dos U2. Boy, War e October são irreverentes na originalidade de um rock ingénuo. A primeira grande cartada de irreverência, e maior de todas, é The Unforgetable Fire, que caracteriza ainda hoje o som da banda: o som é original, mas torna-se consistente e assume-se maduro passados 25 anos.

Voltando a Achtung Baby, a verdade é que a banda continuou a inovar e a criar novas sonoridades álbum após álbum ao mesmo ritmo (talvez tenha acalmado ligeiramente em All That You Can't Leave Behind, ou mesmo em No Line On The Horizon).

E voltando a Stay, se o tema original é fantástico, mais fantástica é a re-criação do tema de Craig Armstrong, onde manteve apenas a voz de Bono.

Mas as tournées dos U2 são sempre inovadoras e Stay, surge em 2001 num formato acústico, que lhe fica a matar.

Entre esta versão e a de Craig Armstrong... prefiro a última, sem grandes hesitações. Digamos que põe o meu coração a palpitar com mais intensidade e mais depressa... e até me faz transpirar ligeiramente...

Fico curioso para conhecer o novo formato do tema na 360º Tour, que vou assistir em Outubro de 2010. Só vos digo, que depois de ver as primeiras imagens dos concertos no site dos U2, ia assitir ao espectáculo nem que fosse surdo!

Sérgio

30 Outubro 2009

Sentimentos Controversos

"...this song is about let it go somebody you don't want let go off...".



Something is about to give
I can feel it coming
I think I know what it is
I'm not afraid to die
I'm not afraid to live
And when I'm flat on my back
I hope to feel like I did

Cause hardness, it sets in
You need some protection
The thinner the skin

I want you to know
That you don't need me anymore
I want you to know
You don't need anyone, anything at all

Who's to say where the wind will take you
Who's to know what it is will break you
I don't know which way the wind will blow
Who's to know when the time has come around
Don't wanna see you cry
I know that this is not goodbye

In summer I can taste the salt in the sea
There's a kite blowing out of control on a breeze
I wonder what's gonna happen to you
You wonder what has happened to me

I'm a man, I'm not a child
A man who sees
The shadow behind your eyes

Who's to say where the wind will take you
Who's to know what it is will break you
I don't know where the wind will blow
Who's to know when the time has come around
I don't wanna see you cry
I know that this is not goodbye

Did I waste it?
Not so much I couldn't taste it
Life should be fragrant
Roof top to the basement
The last of the rock stars
When hip hop drove the big cars
In the time when new media
Was the big idea
That was the big idea

(U2 - Kite, All That You Can't Leave Behind)



Por outras palavras... gostas de mim e não sabes conviver com isso.

Sérgio

17 Outubro 2009

Esta música faz-me sentir bem!



(Sean Riley & The Slowriders - This Woman, Only Time Will Tell - 2009)

Gostava de encontrar a letra, mas não consigo...
Esta música é incrivel... faz-me sentir bem... faz-me ter vontade de estar ao lado daquela pessoa...
Na 5.ª feira passada pude ver esta banda sensacional na FNAC do Mar Shopping. Foram incríveis! Eu, o Filipe e o Jorge "passados" com o concerto e até a Mara ficou fã.
É um orgulho ter entre nós, Portugueses, quem tão bem sabe fazer música e que nada fica a dever às bandas mais maduras que dominam actualmente os sucessos internacionais.

As minhas fotografias:
































As fotografias do meu irmão:

Será que estivemos no mesmo concerto?!
Sérgio

13 Outubro 2009

Um Amor a Sério.

Tenho vindo a pensar, que de facto, já ninguém encara o amor como ele é... incondicional... às vezes duro de viver... mas sempre válido. É lutar pelo que realmente queremos; por aquela pessoa e pelo seu bem-estar e felicidade; pela sua companhia, para sempre... É preciso acreditar incondicionalmente e nunca desistir. O caminho é só um: em frente!

Walter Riso escreve (sobre o amor, "Amar ou Depender") algo se calhar desconcertante para alguns, mas com o qual concordo inteiramente:

"Os laços afectivos podem sempre melhorar-se e aperfeiçoar-se, mas a partir daquilo que realmente somos... Os bons casais não vêm programados de fábrica. É preciso poli-los nas lides diárias desta vida, à força de suor, esforço e, muitas vezes, lágrimas. (...) A vida oferece sempre uma nova oportunidade de começar de novo e limpar o passado. No mais profundo do seu ser há uma fotificação intocada, uma reserva moral inexpugnável que o incita a renascer e a começar de novo. (...) Essa união maravilhosa entre dois seres que parecem um só poderá ser atingida com paixão e sem apegos."

Ou então como escreve Miguel Esteves Cardoso em "Um Elogio ao Amor Puro":

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.(...) Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. (...) Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? (...) O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".
Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. (...) O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. (...) O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


Ou é assim, ou não vale a pena.

Sérgio

12 Outubro 2009

E assim vamos nós...

Ontem quando fui votar pude mais uma vez assistir a acontecimentos tão fantásticos quanto únicos e só possíveis com o nosso querido povo Português (acho eu... não conheço os outros países...).

Demorei 15 minutos para conseguir exercer o meu dever de voto (faz mais sentido do que direito no Séc. XXI). Por bizarro que vos possa parecer, a câmara de voto onde tenho de me dirigir tem uma amplitude de números bastante superior às outras... podia não querer dizer nada... mas disse neste caso. Lá estive eu na fila, que corria lentamente, até que parou! Vá-se lá saber porquê, mas alguém roubou a esferográfica da câmara de voto e enquanto não se arranja outra, ninguém vota! Já dentro da sala de voto, percebi o porquê da lentidão... as respeitáveis senhoras que desenvolviam este trabalho voluntarista à força, não conseguiam ler uma linha seguida (miopia?) e trocavam constantemente os nomes e os números de linhas diferentes. No meio disto, uma delas ainda teve tempo para fazer uma gracinha. Olhou para mim e disse: "Olha, temos um motoqueiro!". Ao que lhe respondi num tom bem mais moderado que o dela: "...motoqueiro não. Motociclista. Concerteza não apelida quem anda de automóvel de autoqueiro, mas sim de automobilista.". Atrapalhada lá me respondeu: "...tem razão, peço desculpa, peço desculpa...".

Já cá fora, enquanto colocava o capacete, fechava o casaco e colocava as luvas sou surpreendido com outra conversa deja vu, entre dois homens que não aparentavam ter mais de 50 anos:
-"...também fiz aqui a 4.ª classe!
- ...e garanto-te que a 4.ª classe aqui, da altura, vale muito mais que o 9.º ou 12.º ano de hoje!"
O outro lá concordou e eu arranquei e fui a pensar. Hoje, um miúdo da 4.ª classe, além de ler e escrever, sabe alguma coisa de uma 2.ª língua (normalmente inglês) e tem noções muito interessantes de informática (capazes de envergonhar muitos dos mais velhos em ambos os casos). Tem também noção de muitos outros assuntos, que a mim não me passavam pela cabeça quando tinha 10 anos (entenda-se que fiz a 4.ª classe há bem menos tempo que aqueles senhores...). De facto, chocam-me estas visões tacanhas de quem não conhece mas assertivamente afirma. Além de confundir conhecimento e cultura com a capacidade de decorar factos (por exemplo, os rios e as linhas de comboio do país e das ex-colónias, como se estas fossem capazes de tornar alguém apto para exercer alguma profissão com valor acrescentado); falamos de coisas que desconhecemos em absoluto com se fossemos donos da razão... mas achamo-nos um país com um baixo nível de educação e conhecimento. Tenho dado por mim a cair neste erro sobre coisas, que achava eu, conhecia ou podia aferir. Tenho dado por mim e perceber que pessoas de quem gosto e respeito, caiem neste erro sobre matérias que não dominam assim tanto. Acima de tudo, percebi que mesmo quando as coisas são claras como a água e a razão inquestionável, pode haver uma outra faceta... afinal a água espelha a nossa própria imagem. Dei por mim a cair nesse erro perante outros e também senti na pele o oposto... Parece-me que à razão, uma componente de tolerãncia, espírito de dúvida constante com uma ponta de humildade somados, nos tornam pessoas bem melhores. Mas reconheço que não é fácil...

Voltando ás eleições... são estas as razões que me levam a pensar se, de facto, a democracia é um sistema justo; se para votar não deveríamos ter de prestar provas da nossa capacidade... Fenómenos como os de Valentim Loureiro ou Isaltino Morais (ou muitos dos cromos que aparecem em cartazes nesta altura e que tão bem têm sido retratados pelo Gato Fedorento) levam-me a pensar que a democracia, de dia para dia, cava a sua própria sepultura.

Sérgio