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16 julho 2008

Leonard Cohen ao vivo em Algés.

Ora aí está um concerto a não perder; nem que fosse pelo facto de dificilmente haver outra hipótese de o voltar a ver.

Foi este o sentimento que me levou a ir ver a Rickie Lee Jones na passada semana, e para vos dizer a verdade... saí um tanto desgosto... A voz tão característica e única está lá, imaculada. A figura é que está um tanto decadente. E nesta caso, fazer piadas com essa decadência não cai muito bem; ou pior ainda, fazer um espectáculo minimalista em que apenas é acompanhada por uma excelente voz e instrumentista (cujo nome não consigo encontrar... penso chamar-se Petra Haden), em nada contribui para que a imagem final seja boa. Falrou lá a banda "toda". Apesar disso, o concerto teve momentos excelentes, ou não fosse a matéria-prima (a música de Rickie Lee Jones), só por si, soberba. Outra coisa cómica, é que esta tournée de Rickie Lee Jones decorre inteiramente nos EUA, com uma excepção: Vila Nova de Famalicão... fica em caminho entre Boston e Detroit!

Mas em relação ao Sr. Cohen, estou certo que vou ver o mestre dos mestres em palco. A sua música não se adequa muito a um espectáculo como o previsto em Algés... ao vivo sim, mas mais intimista.

Lembro-me sempre das palavras de Nick Cave, que afirmava algo mais ao menos assim: saber apreciar a música de Leonard Cohen é, só por si, sinal de que somos uns privilegiados... e esse sentimento torna-nos as pessoas mais cool do mundo...

Ao contrário de muitos músicos, a presença deste senhor e a sua genialidade musical melhora com tempo... amadurece! Vou à espera de encontrar um concerto simples, mas marcante... pela consistência da música e pela imagem do mestre. Tal como referia Bono sobre o mestre Cohen, trata-se de alguém que se movimenta, descontraidamente, em terrenos onde muito poucos de nós, algum dia sonharemos alcançar. Independentemente de quão lata seja a nossa interpretação destas palavras, concordo inteiramente.

A obra de Leonard Cohen tem marcado intensamente o panoráma músical dos últimos 40 anos. É minha percepção que este homem conseguiu um feito único: a intemporalidade. Mais coisas?! Só futuro as dirá...

Sérgio



Give me back my broken night
my mirrored room,
my secret lifeit's lonely here,
there's no one left to torture
Give me absolute control
over every living soul
And lie beside me,
baby,that's an order!

Give me crack and anal sex
Take the only tree that's left
and stuff it up the hole
in your culture
Give me back the Berlin wall
give me Stalin and St Paul
I've seen the future, brother:
it is murder.

Things are going to slide, slide in all directions
Won't be nothing
Nothing you can measure anymore
The blizzard, the blizzard of the world
has crossed the threshold
and it has overturned
the order of the soul
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT
I wonder what they meant.

You don't know me from the wind
you never will, you never did
I'm the little jew
who wrote the Bible
I've seen the nations rise and fall
I've heard their stories, heard them all
but love's the only engine of survival
Your servant here, he has been told
to say it clear, to say it cold:
It's over, it ain't going
any further
And now the wheels of heaven stop
you feel the devil's riding crop
Get ready for the future:
it is murder.

Things are going to slide...

There'll be the breaking of the ancient
western code
Your private life will suddenly explode
There'll be phantoms
There'll be fires on the road
and the white man dancing
You'll see a woman
hanging upside down
her features covered by her fallen gown
and all the lousy little poets
coming round
tryin' to sound like Charlie Manson
and the white man dancin'.

Give me back the Berlin wall
Give me Stalin and St Paul
Give me Christ
or give me Hiroshima
Destroy another fetus now
We don't like children anyhow
I've seen the future, baby:
it is murder.

Things are going to slide...

When they said REPENT REPENT...

(Leonard Cohen - The Future - 1992)

29 abril 2008

I'M YOUR MAN.

"I'm Your Man" é uma homenagem recentemente prestada a Leonard Cohen, por músicos maioritariamente canadianos. Foi editado sob o formato de um documentário sobre a vida de canadiano judeu e músico de excelência. É uma homenagem sincera, prestada em vida ao músico (como todas deveriam ser), em que pode ser invocada a sua biografia, ainda que de forma muito ligeira... sim, porque Mr. Cohen não é o tipo de pessoa que goste de partilhar a sua vida pessoal, nem precisa ou aprecia trampolins para o estrelato. Acima de tudo, porque não precisa... já é bem conhecido junto de quem ele pretende ser... e porque esse tipo de fama efémere não combina com a qualidade, consistência e imortalidade da sua obra. É... há casos em que uma vida recatada e afastada dos media, aumenta ainda mais a fama... mas acima de tudo, o prestígio!

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Quando se fala de Leonard Cohen, fama não é um termo apropriado; vassalagem, sim. Idolatragem, também. Admiração, muita seguramente. Veneração parece-me o termo mais adequado.

No final de visualizar este documentário biográfico, mesmo alguém que nunca tenha ouvido falar deste senhor, estará certamente rendido à sua pessoa, à sua obra, ao seu charme, ao seu olhar... à sua expressão sempre sorridente, sincera e tranquila. Leonard Cohen é um exemplo, um modelo de viver bem, de correcção, de educação, de civismo, de consciência... aquele tipo de pessoa que em cada acto, cada palavra, cada movimento, nos permite aprender uma lição de vida. Poucas pessoas chegan a este patamar... assim de momento só me lembro do meu pai... e do meu instrutor de Viet Vo Dao, José Manuel Mendonça.

A história de vida do senhor tem recortes curiosos... como por exemplo, tratar-se de alguém que nunca se sentiu confortável dentro de uns jeans! Por isso, veste usualmente um fato, como a roupa com que mais confortável se sente. Ao contrário do que se conhece, de mulherengo apenas tem a fama. Na verdade o Sr. Cohen é um defensor da vida com regras, com princípios rigidos, quase militares; a sua admiração por este estilo de vida leva-o mesmo a frequentar mosteiros e a co-habitar com o seu mestre Rushi e os monges, no seu estilo de vida característico. Aliás, aquele sorriso só podia ter essa origem...

Entre os músicos que neste documentário interpretam temas do Sr. Cohen, encontramos Nick Cave (com uma versão divinal de I'm Your Man, e outra de Suzane), Rufus Wainwright (interpreta vários temas entre os quais Hallelluja... tema que eu pensava ser do John Cale!), Antony (num tema que eu não conhecia, mas que é sem dúvida a interpretação mais impressionante do documentário... para vos aguçar a curiosidade, não vos digo o nome do tema!) e os U2 em dueto com o próprio, o Grande Leonard Cohen, em Tower of Song.

No documentário há duas citações que me tocaram em especial...

A primeira é de Nick Cave, que nos conta que na sua infância, vivia numa povoação pequena com a qual em nada se identificava. E descreve o dia em que ouviu pela primeira vez Leonard Cohen, como o dia em que se sentiu a pessoa mais "cool" do mundo! Tinha descoberto algo tão belo, tão próximo da perfeição, e que tão pouca gente conhecia. Sentia-se então como um iluminado... um privilegiado.

A segunda é de Bono, que nos diz algo como "... sejamos muito honestos... Leonard Cohen move-se em terrenos, nos quais muito poucos de nós sequer aspiram a algum dia atingir...". Chocante!

Outro momento muito particular no documentário, surge com o próprio Mr. Cohen a descrever o orgulho com que fez o prefácio para a edição em chinês de um dos seus livros... a humildade com que o faz e o escreveu é novamente chocante... Desde agradecer a aquisição do livro, a pedir desculpa caso o livro não agrade, a agradecer o tempo dispensado a lê-lo, e o orgulho por ter um livro editado na língua de uma cultura que tanto o influênciou ao longo da sua vida.

A obra musical de Leonard Cohen não é muito extensa... O resultado todavia é exponencialmente proporcional á quantidade de temas criados, em que cada palavra nas letras é analisada, repensada e até sofrida; tal como a componente musical, que conhecia sempre várias versões até chegar à final. Uma música poderia demorar um ano a ser criada... o resultado é de uma consistência anormal, apenas equiparada a compositores como George Gershwin.

Ouço a música de Leonard Cohen há muitos anos... os sons foram-me apresentados pelo meu pai, que tem vários discos dele (em vinil como eu gosto!). Em 1988 comprei o único registo do Sr. Cohen que tenho... I'm Your Man. Escusado será dizer que escrevi estas linhas ao som deste álbum... que adquiri em cd (podem não acreditar, mas perde bastante para a atmosfera Cohen reproduzida num vinil... é um daqueles casos em que a diferença é bastante significativa). Leonard Cohen não é um músico que eu ouça muitas vezes... mas é dos que mais toca no disco rígido do meu cérebro...

Deixo-vos com uma reflexão: conhecem Leonard Cohen? Eram capazes de enumerar um tema dele antes de lerem este texto? Quantos dos vossos amigos são capazes de responder a estas duas perguntas? Por vezes convém perceber como é que "gastamos" o nosso tempo de vida: será que o fazemos com coisas, pessoas, factos que realmente válidos? Efemeridade vs imortalidade é um tema delicado...

Sérgio