Admiro a Mafalda Veiga pelo texto que escreveu e que considero como parte dos melhores textos que já li. Admiro-a também pela capacidade de converter em música os textos que escreve. Mas nunca a considerei muito... muito menos o seu parceiro do último álbum, João Pedro Pais, sobre o qual, quem me conhece, já me ouviu dizer cobras e lagartos (até porque associo sempre a ele aquela palhaçada do Chuva de Estrelas: às vezes era um concurso de imitação, outras vezes era interpretação... deixei de assistir ao concurso exactamente na sessão em que participou... depois a hipocrisia do juri do público... enfim... acabei por deixar de ver televisão)!
Desde que ouvi este último trabalho a dois, dou o braço a torcer e reconheço a injustiça. Todos as minhas críticas deveriam ter sido dirigidas às equipas de produção dos respectivos álbuns e não a eles. Este último trabalho revela a qualidade de ambos. Não sei o quê ou quem é que mudou... mas os arranjos deixaram de ser aquela imbecilidade que há 30 anos domina a música ligeira portuguesa, abafando a originalidade dos músicos novos e tornando o som nacional uma pasta sem cor, cuja sonoridade dá náuseas e vómitos. São sempre as mesmas pessoas... ainda por cima desprovidas de qualquer originalidade a fazerem arranjos sem vida e a limar tonalidades sobre acordes menores... possivelmente todo o rock português foi composto sobre um teclado Yamaha DX-7 ou Korg K1. Por isso é tudo soa igual e soa mal... Foi assim que Adelaide Ferreira nunca brilhou... junta-se-lhe Rita Guerra, Lena d'Água e tantos outros, como os In Loco, que ficaria aqui o dia todos a enumerá-los.
Para sermos excepcionais há que fazer o que gostamos, mas com alma... com tudo o que temos! É o que está espelhado neste texto.
Sérgio
Cada Lugar Teu
Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu
tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
tento esquecer a mágoa
guardar só o que é bom de guardar
Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar
Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei
Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve pra longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só
Eu Vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar